Gentrificação, afinal que coisa é essa?

gentrificaciónPor Emilio Font

Antes de mais nada vamos esclarecer que este, assim como outros artigos da série Como Funciona, não tem a pretensão de um artigo acadêmico ou especializado, seu objetivo é explicar em linguagem acessível conceitos e temas sobre cidades, arquitetura e urbanismo.

O termo gentrification – deriva de “gentry”, que por sua vez deriva do Francês arcaico “genterise” que significa “de origem gentil, nobre”, assim seria como dizer algo como “tornou-se nobre”.

Não há um conceito único sobre o que é gentrificação, mas em linhas gerais trata-se de um processo onde uma determinada população de renda mais baixa é substituída em um bairro (ou região) por outra de renda mais alta.

Para alguns estudiosos isso ocorre basicamente através de um processo de especulação imobiliária, onde bairros com imóveis de baixo valor são substituídos por imóveis de maior valor e/ou mesmo quando os imóveis existentes se valorizam de forma significativa. Com isso a população moradora, mais pobre, na expectativa de obter algum ganho, acaba vendendo seu imóvel e comprando outro de menor valor. Ou mesmo os que vivem de aluguel, ao não suportarem a elevação dos preços são obrigados a procurar alternativas mais baratas fora do bairro.

Como geralmente esse processo acaba acontecendo em áreas mais centrais o resultado é que essa população se desloque para as periferias.

Mas não só pela ação imediata da especulação ocorre esse processo, as vezes pode ser forçado, ou seja, quando a população é literalmente expulsa do local onde mora. Exemplo disso são as intervenções urbanas do poder público para implantação de obras, sejam urbanas, sejam para grandes eventos e mesmo processos de requalificação urbana. Neste caso trata-se de uma expulsão pura e simples (principalmente no caso de favelas) ou através de desapropriações, obrigando o deslocamento das famílias (mais uma vez, na maioria das vezes) rumo à periferia das cidades.

Outra situação provocada pelo poder público é quando ao requalificar e/ou reurbanizar uma determinada região provoca-se um processo de valorização imobiliária e consequentemente a expulsão de seus moradores, assim temos uma situação onde o dinheiro público acaba favorecendo a população de maior renda e os especuladores em detrimento da população mais pobre.

Em linhas gerais o que temos é um processo que começa com o abandono de uma área, sua desvalorização, depois sua revitalização e finalmente sua gentrificação

É verdade que nem sempre é essa a intenção, mas em alguns casos trata-se de algo, inclusive, previamente combinado com os especuladores imobiliários.

Outras vezes é um processo lento que pode ter diversas origens, tais como a afluência de “gente descolada” como artistas e intelectuais, mudança e elitização do comércio – consequentemente mais caro – instalação de equipamentos culturais e outras “valorizações” que acabam por alterar o convívio social e mesmo dificultar a sobrevivência da população mais pobre.

Alguns agentes do mercado imobiliário dizem que isso é normal e que mesmo a população existente vende seus imóveis acaba “ganhando” alguma coisa. Pois bem, as coisas não são tão simples assim.

Os bairros objeto de gentrificação são geralmente dotados de boa infraestrutura, equipamentos públicos, culturais, comércio, serviços e de fácil acesso; as vezes são comunidades com fortes laços afetivos de vizinhança, familiares e mesmo com importantes tradições culturais (por exemplo, festas religiosas, comunidades que tem alguma manifestação artística tradicional, etc). Pois bem, na maioria esmagadora dos casos essas famílias são deslocadas para bairros periféricos onde a infraestrutura é precária, o acesso é difícil, o transporte público é precário, faltam equipamentos públicos e culturais, falta até mesmo comércio e serviço; mas não só os laços de vizinhança e até familiares são desfeitos e as tradições culturais praticamente extintas.

Enfim há uma perda significativa da qualidade de vida urbana desses moradores, qualidade que não se mede somente pela qualidade da moradia (dígamos da casa isolada), mas também, e principalmente, pelo entorno urbano em que se encontra.

Deixe uma resposta

Fechar Menu